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  • Gandhy Piorski

Estaleiros de Brincar

Aos meninos das comunidades de Guagirú, Peroba, Redonda, Preá, Flexeiras, Mundaú, Ilha dos Lençóis, Lençóis Maranhenses, Oiteiros.


Inúmeros são os relatos de carpinteiros navais que, desde meninos, construíam seus barquinhos para brincar. Assim também muitos, ainda hoje, são os meninos que trafegam nesta memória da artesania de navegação. Construir paquetes, botes e jangadas para brincar requerer lições de vento, de água e texturas próprias adequadas ao mar.

Há um trânsito de informações entre tios e sobrinhos, avós pescadores e seus netos, pais carpinteiros de paquetes e catamarãs e seus filhos. Isto se comprova no modo como meninos com doze, treze e quatorze anos de idade dominam suas faquinhas de construção. Ou como um jovem de quinze anos tem tanta familiaridade com nós e trançados e seus brinquedos de navegar são naturalmente elegantes, esguios e intimados com a força dos ventos.



Em muitos antigos e atuais pescadores vimos prazer ao lembrar de suas aventuras de meninos construtores de barquinhos - construídos por eles mesmos - ferozes, deslizando em águas rasas e, por vezes, escapando de suas mãos, para nunca mais voltar. Encantador é assistir o respeito que os meninos têm com carpinteiros exímios, alguns já mortos, ou que há mais de vinte anos construíram uma jangada até hoje usada nas pescas de seus familiares.

Este elo com seus antepassados artesãos e pescadores que mapeavam estrelas, e ouviam da lua a hora de pescar, perdura com nitidez na habilidade manual e na estética de nós, ligamentos, encaixes, e afilamentos do brincar.

A carpintaria naval, por gerações, é a latência de boa parte do universo lúdico das crianças em pequenas comunidades do litoral do nordeste onde ainda subsiste a pesca artesanal. Os meninos crescem com os olhos no talho da enxó, assistindo carpinteiros no trabalho. Apreendem o manuseio e a utilidade de boa parte do acervo de ferramentas, peças de pesca e navegação que compõem as embarcações do lugar.


Mesmo não tendo oportunidade de usá-las, reconhecem seu manuseio, e até – num ímpeto e audácia de menino – ensinam e repreendem o mau entalhador. Pois o saber está inteirado, fisgado pelo interesse contínuo de admirar o carpinteiro preciso e meticuloso a trabalhar.

Os resvalos de tal saber desembocam no brincar. Muitos até “roubam” os “ferros” (ferramentas) dos pais para, num dia de glória, brincar construindo e realizando todo aquele sonho de artífice instigado pela mestria do carpinteiro naval.

É comum e corriqueiro quando surge a oportunidade de acessar matéria prima e ferramentas os meninos acenderem, como rastilho de pólvora, um interesse vigoroso na construção de barquinhos pra brincar de navegar. Cuidam com detalhes e delicadeza de cada peça de seus paquetes, de cada remo, mastro, vela, tranca, banco de mastro e tantos outros instrumentos que compõem uma embarcação.

Ao mesmo tempo se fazem enxutos, pois os barcos precisam navegar com desenvoltura. Assim, muitos outros instrumentos existentes na composição de uma jangada caem no esquecimento dos meninos, pois estes se fixam no essencial que propicie a melhor agilidade do barquinho. Entretanto, mesmo nesta síntese, conhecem uma gama significativa dos detalhes da construção e da navegação.

Uma arqueologia da brincadeira de barquinhos atravessa demoradamente a memória aquosa, vigiada por muitas estrelas, dos velhos pescadores e carpinteiros navais das comunidades