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  • Gandhy Piorski

A criança e a dor em Jean-Michel Basquiat

Ao meu tão querido irmão Glaucus Noia


A dor na criança exala pela superfície do corpo, nas linhas do gesto. Mas emerge desde as profundezas de sua corporeidade. Movimentos agudos. Voz estridente. Cansaço contínuo. Medo repetitório. Silêncio resignado. Distância. Dispersão. Distopia.


Do corpo em si, a dor derreia para as coisas feitas, os desenhos, as pinturas, as massinhas, os brinquedos, as brincadeiras.

Quase sempre na linha, nos relevos e nos espaços de composição, nos fragmentos plásticos da criança, pode-se encontrar a dor.

Muitas vezes a dor é eruptiva e grita no traço forte, nos agudos e longilíneos. Outras vezes ela se quer nula e cala na cor opaca e melancólica. Mostra-se também a dor de forma embargada contorcendo a forma. Quando se revela reprimida, compacta-se no espaço. Há a dor silenciosa que sucumbe nas dimensões do traço fraco, apagado.

No entanto, atenção! Nem sempre o compacto, o contorcido, o agudo e longilíneo, o opaco e silencioso são formas de dor. Tudo isso, muito bem, pode ser brinquedo de conhecer e desfiar a dor. Quem sabe experimentos da coragem. Coragem para compactar, contorcer, represar, calar, inverter, estancar e, sobretudo, ser sangria.

Jean-Michel, esse anjo Basquiat, sabia evocar com poder, os múltiplos da dor. Conhecia a via da criança e seu traço primo, feroz, livre e nu. Praticava sua liberdade brutal evolando matéria pictórica e grafismos do núcleo mineral de cada símbolo.



Basquiat conjurou sua criança. Não só a ferida, mas a divina. Aquela que traz a inocência e a sabedoria. O poder e a delicadeza. O passado mais prístino e o futuro. A sublime alegria e o assombro infernal. O andrógino e a cura.

Se ele, anjo muito delicado, não tivesse rareado seu tempo, e assim, suportado tanto mais a esse esganiçado mundo, talvez tivesse alcançado o poder de virar passarinho.

A criança quando queixa sua força, recorre ao grito da expressão. Chama pelo anjo Basquiat.