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  • Gandhy Piorski

Os Gestos da Criança

Para caso de olhar mais à dentro, podemos buscar os recursos dos gestos. Gestos são recursos muito antigos que adornam, aprofundam ou acompanham o traçado nerval da fala, da palavra. Mas gestos também são recursos expressivos, muito pragmáticos, que independem da palavra, da fala. E ainda, gestos são comunicações da alma que, muitas vezes, nada tem a ver com os códigos de comunicação cultural.

Por exemplo, não é raro, só uma mãe conhecer os gestos de seu filho com autismo. Mãe capaz de ir ainda mais à dentro em sua ligação com o filho, vinculando-se a ele para além de suas caóticas articulações “nervosas”. Sabe seu filho pelo saber visceral do amor. Penetrante é essa sabedoria, em qualquer gruta interior humana. Com a luz do coração, a mãe vai desembaraçando os gestos e alçando a expressão essencial. Lê ali, surpresa, atônita muitas vezes, uma nítida fala da criança, uma proto e irrequieta linguagem. Há mesmo uma presença imperiosa e comunicativa, desde o latejo emaranhado de crianças que talvez tenham dons de fender percepções. Será mesmo o autismo um isolamento, um monólogo ecoante? Essas crianças denotam obstinadas, no testemunho de muitas famílias e terapeutas, outros modos de perceber. E muito se contentam, se expandem, e se apaziguam, quando compreendidas.


Há mais nos gestos. Há mais na linguagem do olhar. Há mais na irradiação dos braços fortemente cruzados, do que nossos preconceitos sobre nossas filhas e filhos supõem. Há no gesto algo que se descola de seus sentidos universais ou culturais e se cola ao inaudito. O gesto também vem dos anjos, também vem do sol, também vem da membrana astral de outras galáxias. Vem do mundo animal, mineral, vem das lesmas, vem do asco profundo, do nojo que algumas crianças sentem de um aglomerado de organismos.



Os gestos também vêm da ECOLALIA, dessa repetição geradora de polifonia, ecoada, compulsiva, da fala. Alguns abstrativos em máximo grau, como Einstein, tinham traços de ecolalia. Repetiam, para si mesmos, as frases que acabavam de dizer. Esse eco da palavra repetida, vibrado, em si mesmo, é só traço autístico ou psicótico, ou também pode ser investigado como traço escafândrico? Pode ser investigado como “gesto”, ato, que escapuliu da palavra e se fez impositivo, irredutível (aflitivo até), de querer ir muito mais do que o aprisionante senso comum? Ecoando para dentro, reverberando, como uma espécie de chamado atordoante para esferas ainda mais significantes. Esse seria mais um dos rastros pelo qual acompanharíamos crianças com ASPERGER, crianças que só sabem ser singrando?

O gesto colado ao nascimento da fala é uma das coisas mais graciosas na criança. Principalmente quando ela introduz uma demarcação territorial, na luta por afirmar sua identidade, com gestos de reivindicação e limites. Talvez essa seja a primeira ESPADA da criança. Um desses característicos é quando ela, muito pequenina, explica algo importante que não está sendo ouvido pelos adultos, com as palminhas das mãos diante de si e abertas para o alto e os cotovelos bem colados à cintura. Ela explica franzindo a testa – seriamente - seu ponto de vista. Se põe em um ponto focal, se posta DIANTE DE. Aposta em sua investida. Pede seu espaço. Ouviríamos suas palavras de um modo completamente diferente se ela, ali diante de nós, não estivesse doando total expressionismo às suas mãos. Por que o corpo não se contém só com a palavra? Por que o corpo aprende desde muito cedo a ressonar, a vibrar, a repercutir a rítmica da palavra?


Talvez as perguntas aqui devam ser invertidas, para o bem de um compromisso fenomenológico. É o corpo, esse arranjo da memória (com um coração que o pulsa), quem faz a palavra ritmar na criança, ou a palavra é quem faz o corpo vibrar? De onde nasce a palavra? Nasce ela do corpo, ou o corpo já traz um registro de proto palavra desde a gestação, desde seu primeiro filamento neural? Registro esse que inclusive corrobora diretamente na formação desse corpo. Registro esse que faz do corpo PESSOA, aquilo que ressona, que soa, que é LOGOS, som primordial. Haverá um logos matriz, uma matriz neural do verbo, que assina neurologicamente o tom de nossa voz, o tom de nosso ser?

Não acharemos tão facilmente a fonte desses problemas tão recuados. Mas as perguntas já cumprem algum expandimento nesse esboço sobre o gesto. Vivemos uma alienação do corpo mesmo imersos numa poderosa indústria que hipnotiza milhões de pessoas para o USO de seus corpos. Vejo pessoas e mais pessoas praticando esportes como quem não teve infância. Se paramentam inteiros, fantasiados de artrópodes das mais variadas modalidades de besouros, moscas, louvas-a-deus, bichos-pau e saem, no final de semana, para pedalar, ou caminhar, ou remar, ou surfar. Os paramentos são como alas de escolas de samba e suas fantasias. Estampam a cara de uma civilização massificada, consumidora automática de todas as marcas, roupas, capacetes, tênis, sustentando uma indústria tóxica e de design duvidoso.

Uma paisagem social plastificada, artificial, asfixiante, corpos lacrados de protetores solares e aparatos (fantasias de super heróis) esportivos. Adultos que mendigam suas infâncias perdidas, fantasiados de super poderes, em seus motores e super pedais (e o que mais for) empoeirando o sossego dos campesinos.

O corpo civilizado, autocentrado, é quase só um suporte para o ridículo. Claro, ele sim fica suado durante esses tais desfiles de finais de semana, ele fortalece os músculos, ele se maromba. Mas ele realmente se imanta de consciência? Ele realmente se extasia interiorizado no ar, na paisagem, na água? Ou apenas se alegra vitorioso cumprido as metas dos egos adrenalizados?

Caminhar, por exemplo, sempre foi ato filosófico para os que realmente querem conexão com o corpo, muito antes das decadentes - no que diz respeito ao gosto e ao ato político - megalojas de esportistas. Para Nietzsche, por exemplo, boa parte de sua filosofia nasceu de longas caminhadas, quando suas fragilidades físicas, dores atrozes, permitiam. Suas ideias mais originais nasceram com o corpo em movimento. Disse ele no trovejar de seus quarenta anos de idade, no arrepiante livro Ecce Homo: “Ficar sentado o menos possível: não por fé em pensamento algum que não tenha sido concebido ao ar livre, no livre movimento do corpo – em idéia alguma em que os músculos não tenham também participado. Ficar “chumbado na cadeira”, repito-o, é o verdadeiro pecado contra o espírito”.

Caminhar é um dos mais contundentes gestos, por isso ele ficará para outra oportunidade em nossa reflexão. Vejamos, por agora, mais algumas outras delicadezas linguísticas no corpo da criança.

O ânimo incansável de abaixar-se no mundo, para ver o mundo de baixo, talvez seja o que de melhor os músculos da criança descobrem sobre a humildade e tirania. Um bichinho que pede alimento, as formigas se cumprimentando, a lagarta na folha, uma flor, um caco de vidro, as conchas, um inseto nocivo. Ir até o menor. Que grandeza! Não só a grandeza virtuosa, mas também a grandeza de ser maior, mais forte e, portanto, senhor daquele mundo inferior.


Existem também os gestos de descobertas de seus próprios talentos, ou modos de expressão dos gostos para liderar, conduzir, levar conhecimento, se empoderar e, também, apoderar-se de sabido. Os desejos em esboços autoritários! A irresistível vontade de vir ao centro, pois algo a mais a criança tem a dizer, algo a mais aprendeu. A deliciosa vontade de mandar mais um pouquinho nos outros mais passivos. Tais crianças amam imitar suas professoras, na postura, na entonação, na imposição, na impostação. A alegria de se sentir instrutora, de participar do aprendizado de um mais novo, ou até (que vitória!) de um mais velho.



Dos gestos libertos podemos perceber deleites da entrega. Soltar, pelas mãos e pelo sentimento, um barco na água, por mais tranquilas que sejam as águas, é sempre exercitar a façanha de dar-se ao movimento instável, sem controle, sem previsibilidade. Entregar um precioso barquinho, principalmente se foi construído pela criança, às águas, é um ato ÉTICO de liberar-se. Nas corredeiras de calçadas, quando as chuvas desabam, vê-se ainda crianças liberando-se, de si despregando, doando-se EM SEUS BARQUINHOS DE PAPEL, corredeira abaixo, ladeira abaixo.



Existem sempre, e em sua maioria, os gestos que amparam diversas significâncias. Um exemplo desobediente é tapar os ouvidos; mas também investigativo. Dizer não aos sons de fora ou às broncas, ou uma recusa em ouvir o outro, ou uma proteção contra agressões verbais e sonoras. Mas também, esse mesmo gesto, é modo de sondar. Ouvir os sons do corpo. Aqueles que se ouvem de ouvidos bem tapados. Uma atmosfera sonora pulsativa se abre nesse gesto. Algumas crianças demoram-se aí para, logo depois, verem explodir na audição o barulho de fora, quando destapam os ouvidos. Outras se delongam buscando o poderoso bumbo do coração. Quem lembra? Quem já fez? Quem nunca brincou e brincou e brincou com seu próprio corpo?