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O Corpo o Risco e o Brincar

Atualizado: Mar 12

A soma das coisas que nos marcam e impactam seriam a tessitura de uma ideia de eu? Ou o eu seria o núcleo, o vórtice, o impulsionador da luta contínua do organismo com o meio? Ou ainda: eu é uma coisa vinda de um lugar pretérito e está bem guardado, intacto, em alguma concavidade músculo-esquelética de nosso corpo, irradiando significantes para nossos neurônios? Mais amplo: eu é um estado uno de toda a vida do qual se descolam fragmentos individuais, eus menores, desse eu maior?


Saberemos um dia?


Talvez até já saibamos sem nos dar conta. Mas o que sempre contou e agora conta, o que temos, para todas as nossas tarefas relacionais, certamente está assentado em nossos corpos. Assentado como queiramos, vindo de fora ou formulado como broto nascido do próprio corpo. Importa, no entanto, que é algo incrustado e simbiotizado ao corpo. Um simbiótico em contínua exalação semiótica.


Para que haja ampla exalação de significados e sentidos é preciso que essa instância, quase sempre tida como metafísica (eu), esteja, pelo menos, em algum aspecto, bem assentada no corpo.


Nossos primeiros gestos e posturas, os estados corporais que um bebê alcança, a capacidade de aprender, POR SI, a engatinhar, sentar, ficar de pé, andar, não são só aprendizados e conquistas que devemos soberbamente nos orgulhar. São marcadores, marcos de construção de significados, assentamentos do eu.


O eu, essa palavra estabilizadora, assenta-se como senso de desassombro e se faz entidade guardiã da criança, à medida em que seu corpo tem a oportunidade de experimentar as mais amplas oportunidades perceptivas. Percepções sensórias, músculo-esqueléticas, neurolinguísticas, amorosas.


O prisma gestual dos 0 aos 09 anos de idade é quase infinito de nuances, mas tem firmamentos indispensáveis para o desenvolvimento da propriocepção. Esses firmamentos gestuais, esses núcleos de gestos são “marcadores somáticos” (António Damásio). São regências corporais que, em nós, moram em potência e necessitam ser descobertas, ativadas, evocadas, sonhadas, brincadas, balbuciadas e faladas.


Normalmente tais gestos fundantes da criança acontecem em interação com o gestual do cuidador. Se desenvolvem num enlace com categorias valorativas que ancoram nosso caráter, nos abrem o espaço e permitem a insinuação das qualidades do tempo.


A contenção, o carinho tátil, o abraço, a linguagem amorosa, o deixar ir, deixar cair, amparar a dor, confirmar com o olhar, afirmar o silêncio, permitir a descoberta e o inusitado, confiar ao corpo o aprender de si, não cercear, tais propósitos são quase adjetivos gastos, ou sugestões pueris. Mas se observarmos com atenção, há um enorme território gestual que amalgama o corpo ao eu no ato de conter, acarinhar, abraçar, falar com amor, soltar, permitir a queda, acolher o choro, comunicar com os olhos, silenciar em prol do outro, dar espaço à surpresa, ver o corpo como uma inteligência vital que até aqui trouxe a humanidade.


São marcos que talvez pelo excesso ou pela falta nossa civilização esteja abandonando. A redoma (e os interesses) em torno do termo INFÂNCIA tem nos fragilizado. O RISCO já não é virtualidade primordial no assentamento do corpo no eu, ou do eu no corpo.


Poucas são as culturas da atualidade que levam em conta o risco como firmamento do eu. Raros são os parques, pátios e praças do mundo que consideram, nos desenhos de seus brinquedos e em suas arquiteturas exploratórias, o risco como fator essencial para o melhor e mais econômico uso da tecnologia corporal. Econômico aqui como termo da biomimética, como conceito central de precisão e estabilidade, como inteligência primal da natureza em manter-se geradora.


Não faz muito tempo que os brinquedos dos parques eram muito mais altos, desafiadores e provocadores. Não faz muito tempo que nossos pais confiavam em nós para irmos. Ainda na década de oitenta do século XX vivíamos pulando os muros dos quintais e correndo pelas ruas das cidades e desbragados, ladeira abaixo, descalços, controlávamos nossos rolemãs feitos de tábuas cheias de farpas.


Não foi só a violência que nos tirou tudo isso, não foi só o crescimento das cidades, não foram só os vídeo games e o mundo que envolve as telas. A categoria antropológica INFÂNCIA é uma mina de ouro e um território de afirmação para muitas corporações profissionais e ramos do lucro e da política.


Fomos delegando nossas crianças, desconfiando do poder da natureza e sua sapiência em engendrar um sentimento de eu, desde um corpo forjado por eras. Rápido o mercado da infância invadiu os consultórios pediátricos, as escolas, as políticas públicas, os divãs. E a criança - na mesma medida em que a ideia de INFÂNCIA subiu ao pedestal do discurso - foi sendo execrada de seus direitos, foi perdendo sua liberdade, foi sendo obsediada por toda sorte de rapinagem educativa.


Corpos afrouxados do eu e temerosos são só corpos, ou são eus facilmente domados e capturados pelas inúmeras escolas de arrogância, frivolidades e messianismos violentos?



Os autoritarismos que costumam arrastar nações inteiras incapazes de discernir, parasitários do medo, sem a perspicácia de seu senso próprio, de sua pulsão de liberdade, são só sedutoras ideias ou são cabrestos instalados no núcleo neural (corpo) de nossas identidades? Seriam arreios tranquilizadores para nossos incontornáveis impulsos de sobrevivência?


Quando haveremos de redescobrir que os sonhos de restauração de nossa humanidade só existem bem ENCARNADOS?


A EXCARNAÇÃO (Aleida Assmann) como ideia de fragilização daquilo que já não sobrevive mais na prática viva no seio de um povo, e portanto sai da vida vivida e oral e vira-se em escrita (para de algum modo sobreviver), vira-se em lei, vira-se em ditame governamental, vira-se em discurso institucional, dogma religioso, não seria apropriada para o conceito de INFÂNCIA?


A infância é uma EXCARNAÇÃO da criança?