Buscar
  • Gandhy Piorski

As obras da criança III - A perda da alma



As crianças fazem e também falam de suas fabulações com despudor. Narram com simplicidade o nascido de suas mãos.


No que constroem vê-se a inscrição de um facho estético, uma luz vital que se descola, qual balão, de funduras e flutua em direção à superfície, como anêmonas que ascendem luzentes no mar escuro.

Entretanto não há intento estético nas coisas da criança; há energia inventiva que se configura num objeto, num desenho, que organiza seus propósitos em imagens. Essa substância principiadora deseja o manancial pictórico da luz exterior, anseia a plástica, procura a densidade material para cumprir sua tarefa: modular-se numa forma. Ganhar vida formal.


Reparemos, portanto, que a ação da criança na matéria tende à densidade, ao encorpamento plástico. Quando não, à dramaticidade. Ela afirma-se no material sem o tempo da elaboração. É despreocupada da arte. Não problematiza seu estado, nem seu espaço e muito menos seus materiais. Desprega-se de um fundo e irrompe na superfície se fazendo carne com o que vem à mão.

É, portanto, ACOMETIMENTO DA ALMA. Alma em incursão no mundo. Substrato dramático que se encrusta no adjetivo, no verbo e até mesmo no substantivo.

Tais incursões, muitas vezes, são insurretas. Não aceitam o estatuto do tempo cultural. Principalmente quando este se faz dique à alma.

Criaturas robotizadas, corpos controlados, pensamentos mecânicos, mulher/robô em dupla jornada de trabalho. Surgem assim símbolos denunciando a perda da alma.

Vejamos.

Na sequência quatro imagens: a primeira da escultora polonesa Madalena Abakanovicz, ‘Multidão’, 1986/1987; a segunda do menino de 09 anos, ‘Mulher elétrica’, 2012; a terceira da mesma escultora polonesa, 1987; a quarta, ‘Pensando no sanitário’ do menino, de 11 anos, 2012.

Madalena retrata os corpos massificados, controlados, industrializados pelo trabalho coletivo e repetitivo. O menino de 09 anos fez sua mulher elétrica e disse: “ ela é elétrica, pois minha mãe quando chega a noite do trabalho está cansada, eu ligo ela na tomada, recarrega a bateria, aí ela pode brincar bastante comigo”.

No objeto do menino os braços e as mãos, esses símbolos de contenção, cuidado, amparo e fazer amoroso, não existem. A mulher elétrica, uma mãe sem tato. Rarefeita de Intimidade. Faltante. Essa mãe que, robotizada, pode suster sua dupla jornada pela dádiva de um acumulador de energia, uma bateria.

Madalena Abakanovicz rebela-se contra a sistematização da arte e da vida com seus corpos de tecido e resina, sem cabeça, programados. No mesmo esteio, o menino de 11 anos cria sua obra: ‘Pensando no sanitário’. Uma mulher - segundo ele - robô.


O lugar de pensar, o sanitário. A sanita, o banheiro, a casa de banho, onde nos limpamos, nos lavamos, folgamos, nos livramos, FANTASIAMOS.

Esse território da fantasia - agora pela obra do menino - humaniza a máquina, ensina-lhe o devaneio, absorve a mulher mecânica na intimidade segura. A privada, refúgio urbano contemporâneo, se faz conselho, cria pausa, abre para o pensamento solto, abriga da sistematização pública dos corpos e das imagens. O privado e a PRIVADA.

O segredo da mulher robô é procurar ser. Acrescer de alma seu sistematismo calcificante.

Assim as crianças seguem cumprindo a intuição de PLOTINO:

“Eu penso, portanto, que aqueles antigos sábios que procuraram assegurar a presença de seres divinos ao erguerem santuários e estátuas, mostraram discernimento da natureza do Todo; eles perceberam que, apesar dessa alma ser sempre sentida, sua presença deverá ser totalmente assegurada, mais prontamente quando um receptáculo apropriado é elaborado, um lugar especialmente capaz de receber alguma porção ou fase dela, alguma reprodução ou representação sua que sirva como um espelho para capturar uma sua imagem”.

Criar coisas no tempo de criança É PLANTAR ALMA NO MUNDO.