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  • Gandhy Piorski

A criança e o fulgor da visão

do olho

da contemplação



Um dia desses pedi licença a um fotógrafo para escrever coisas usando suas imagens como inspiração. Lori Figueiró é o nome dele. Permitiu, gentilmente, que eu postasse suas fotos. Imagens de uma humanidade telúrica do Vale do Jequitinhonha. Um fotógrafo da matéria elementar, de fogo, fumo, reza, algodão, barros, couro, criança, cana, boi, dança, música, quitandas e tamborete. Coisas fundidas aos seres. Um fotógrafo ferreiro, desses que vê nas coisas alma e nas almas COUSA.

Já, de início, peço desculpas ao artista, pois aqui fiz uma reprodução amadora das imagens, longe do tratamento que ele próprio dedica a seu trabalho.

Escolho algumas dessas fotografias caboclas de Lori, de dois de seus livros (COTIDIANOS NO SAGRADO DO VALE e REFLEXOS AO CALOR DO VALE) me aventurando a colher delas traços de uma pedagogia do fulgor.

O trabalho das matérias elementares é um fervor para o olhar da criança.

O duelo das mãos convictas com as matérias decididas de sua radicalidade, é um espetáculo para o olho descobridor. Um campo de batalha. Uma capoeira d’Angola. Lenta e quase luxuriante.

O Olho da criança, chispado de deleite, se põe a acompanhar o traquejo prolixo no território de combate. Uma luta rente, corpo a corpo das MÃOS com a MATÉRIA.

Nesse manejamento as mãos só vencem se revelarem uma matéria dominada, acomodada, adestrada, forjada, apartada, amaciada, cedida, afrouxada, desfiada, tecida e “deslembrada” de seu tônus. Apertada. Uma matéria feito forma. (COM)Formada.



Essa tal filosofia da dominação sensual, da colonização sedutora, da imposição elegante, do coito lento e selvagem, só quem faz é o artífice.

A Criança nunca dominará o algodão, o barro, o cizal, o couro, a cera de abelha e o breu. Seus ensaios primeiros com a matéria tem um campo vasto dos primeiros ensinamentos, mas nunca o estudo consciente do domínio (ou da busca dele) sobre o outro, sobre a vida, sobre a natureza.

A criança ainda não se inaugurou na vida do controle e da dominação. Ela ensaia. Vai fundo em seus ensaios. Inaugura as premissas, provoca dialéticas, assalta com enlevo os materiais, desfigura seus movimentos, afronta com incandescência a causa das coisas, deforma a forma, arrebata o pesado, densifica a pluma, arreganha o mole e trucida o duro.

Todos esses gestos são de interesse na plasticidade e menos na forma. São os primeiros sopros filosóficos do mago juvenil e forasteiro. Aquele que testa o mundo sem comprometimento, porém com arrojo e ousadia.

Devemos manter o labor, o fazer da criança da primeira infância, o mais possível na plástica e muito menos na forma. A plástica, a profundidade material, contém infinitamente mais vigor estético, aura POIÉTICA (semântica inconsciente), impulso criador do que sua configuração final, a obra em si, o resultado formal.

Entretanto observemos, há um estado natural à criança que estranhamente não encontramos nas discussões pedagógicas, ativo e provocador, arguto e absorvente que se chama CONTEMPLAÇÃO. Esse sim é capaz de ir além da plástica e tirar as lições estruturantes da forma.

Contemplar as coisas em refazenda, as formas em formação, CUMPRE A FUNÇÃO DE ATIÇAR ASTÚCIA NA INFÂNCIA.

Para isso a natureza nos deu um corpo com magnetismo suficiente capaz de captar a pedagogia contida no gesto das coisas. Vendo apreendemos. Na contemplação há um aprendizado de encrustamentos.

Os artesãos sempre clarificaram sentidos, semânticas, propósitos em suas comunidades, especialmente nas culturas orais. Até a palavra dita, a natureza de seu dizer, tem uma linhagem material, um clã de origem laboral. Quem tece tem primazia de algumas palavras, os ferreiros de outras, os oleiros as de sua origem, como nos ensina HAMADOU HÂMPATÉ BÂ.

A psicanálise do artesão para a criança é a do ócio e da festividade. O trabalho do artesão aos olhos da criança é uma eterna festa, é um fervor, uma crença na vida, uma cura do mundo, um ordenamento que sempre inaugura o dia, o sustenta, o mantém pulsando.

Quantas vezes, quando menino, perambulando na vizinhança, me detive - no livre esquecimento - magnetizado pelo ofício do ferreiro! Como suas mãos eram íntimas do fogo, não temiam em nada o calor, faziam dele um amigo, um servo!

Os sapateiros, mais distantes de minha casa, via-os menos. Eram os senhores do golpe surdo absorvido pelas solas, porém precisos e discretos, sem a estridência do metal. Tinha um veludo nos sons da sapataria. Um veludo envolvente, acústico, que EVOLAVA TODA A MEMÓRIA no cheiro de couro e cola. Despertava-me de amor pelos bichos só de ver suas peles empilhadas. Intrigava-me também, nessas oficinas dos pés, com os sensos do caminhar. Especialmente aqueles moldes de pés deformados, adaptados. Como se fazer caminhante sem poder caminhar? Imitava eu os mancos para testar o sentido das coisas sendo coxo. Cheguei até a desenvolver uma perna postiça.

As mãos dos sapateiros eram silenciosas e pacientes, sempre se desvencilhando com habilidade das insistentes colas. Colocavam a cola, domavam-na para seu devido lugar, criando palhetinhas de fórmica para espalhar aquela coisa teimosa e peganhenta no couro. Admirava-me aquela precisão em se distinguir, ainda que íntimo ao material. Pois eu, nos meus inventos de quintal, todo me lambuzava com o fazer.


As quitandas e bodegas, essas frequentei quase que diariamente. Os sacos de grãos, o café moído, os fumos de rolo, as ervas de cheiro, as ervas de cura, as borrachas recortadas das câmaras de bicicletas para serventias de fixações sem fim, os cabos de enxadas, as panelas de ferro, os pilões.

Os fogões à lenha. Eles próprios uma oficina à parte. Cortar a lenha, acender o fogo, limpar a tirna das panelas, deixar um foguinho sempre aceso, limpar as cinzas. Todos filosofemas da transformação. Laboratórios do sabor.

A criança melhor adentra seu mundo interior pelo trabalho manual, corporal do mundo exterior, adulto.

Há fogo no ver, fulgor em contemplar. Quando apreendido da ociosidade, o contemplar é uma das mais incandescentes pedagogias na primeira infância.

Devemos trazer o trabalho artesanal adulto para perto das crianças. Trabalho feito pelo adulto habilidoso. Para que o repertório de gestos, sons, cheiros e texturas seja exuberante e generoso para visão de quem o vê. Para que a habilidade seja conhecida em seu grau maior. Para que as matérias sejam desnudadas para o maravilhamento dos olhos novos, recém-chegados, ávidos de imanência.

Uma comunidade que se pretende educadora deve trazer a vida artesanal para seu cotidiano. Assim no ócio, na liberdade, a criança vai encontrando com esses mestres de fiar, de forjar, de modelar, de construir o mundo. E cada encontro acende uma chama, enlaça o ver profundo, vincula a memória, adere o corpo à crença na luta vitoriosa.

As crianças devem crescer ao pé do sabedor de matérias, do contrário o inteligir criador estará cada vez mais distante dos homens. O sabedor de matérias deve repovoar as infâncias, do contrário crianças não constelarão seus sonhos de arreigar até o chão, às grotas da criação.