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  • Gandhy Piorski

Os Gestos da Criança III

Nesse contínuo de uma antropologia do escultórico, acompanhamos sulcos feitos por cinzéis e martelos que revelam também memórias do escultor, suas intenções de infâncias. Estatuária dos sonhos de criança. A tridimensionalidade das revelações primeiras. Artistas que lapidam pedras e sublimam a suspensão infantil em tal matéria, são conselheiros do peso bruto, conduzem-no às pretensões do diáfano, o querem converter em enlevo. Retratar crianças impõe aura mágico-inaugural.


Nas crianças, por detrás dos gestos, esconde-se rastilho mágico. Encontrar passarinhos, por exemplo, desperta sempre as intenções do airoso. A autoria dos começos INSCULPIU, atenciosamente, delicadezas como passarinhos. Que gestos foram necessários para burilar o passarinho? Talvez as crianças nos saibam mostrar. O corpo delas é dominado, domado, diante das miudezas desses bichinhos. Tudo se sustém, fica comedido, para o bem daquele encanto. Leva os dedinhos suspensos, se ajeitando, para tocar o bichinho. Chega-se nele devagar. Os olhos cintilam na cintilância das penas que guardam o prata no fundo de seus tons. As mãos da criança aprendem a pousar no corpo desses mestres da arte de pousos. Seus corpinhos delicados, por si, ensinam finezas para as crianças. As mais abruptas são logo advertidas, pelas outras, de como devem tocar, como devem se aproximar. Passarinho nas mãos da criança ensina chegança.


Mas há ali, desde o primeiro encontro da criança com o pequeno voador, a mensagem implícita e declarada da partida. Já no ajunte do magrelinho penado, que por algum motivo não consegue voar, ela antevê a hora de seu revoar. Pressentem das asas: passarinho em recuperação logo voltará ao azul. Tanto é assim que logo conjecturam junto aos pais se podem ficar com o pequenino dos ares. “Posso ficar com ele só um pouquinho? Depois eu solto!” Irresistível o sonhar das asas. A mais tentadora de todas as sonhanças.


Passarinho curado é hora do definitivo adeus. Tal despedida é mais radical que a entrega do barquinho às águas. Pois águas estão abaixo, pode-se talvez resgatar o barquinho. Mas passarinho é do céu. Nunca mais há de aqui haver. Abrir as mãos, deixar ir, são instantes de vazio. A impressão do afano veloz das asas deixa para a criança o rastro austero da liberdade. Quanta coragem requer o livre? Ninho - esse preparador de voos - sequer tem telhado. É custoso autorar voo. Ir é um verbo de rupturas.



Existem aqueles gestos tão belos, tão simples, que de tão singelos e essenciais não são observados pela educação e suas conjecturas assoreadas sobre o brincar. Por exemplo, refrescar-se com a boca no jato de água que sai de uma mangueira. Não seria isso irrigar-se ainda mais das tarefas felizes de um quintal? A água fria que desce garganta abaixo não seria a recompensa dignificante dos pequenos lavradores do tanto sonhar? O trabalho braçal das crianças são duradouras vitórias que se somam a seus ossos, são sábados inesquecíveis, são férias que nos autorizam, nos creditam um viver mais real que o tal real do mundo vivido.


A pausa, a sede, a água que se aproxima da boca e faz fresco o corpo de sol, é um afago muito silencioso, quase imperceptível. Este é um gesto mais próprio da criança já fortalecida em sua capacidade de constância nas tarefas. Já domina seu cansaço, e o leva consigo, e o sustenta. Já conhece seu corpo em certos limites. O ensina a esperar pois há sempre a recompensadora chegada. Uma simples recompensa, beber água. Mas não são esses simples gestos de alegria compensatória, de prenúncio da conquista, que buscamos vida à fora?


O despojamento, a direta relação com a fonte, a boca que se estende ao líquido, todos gestos de integração. Nessas pausas para refrescar-se, muitas vezes depois do dito brincar, não é raro encontrar a mimese do herói buscando repouso. Nunca se fala do repouso do herói. Só se observa o herói em ação. Mas o repouso, o distensionamento, o lugar de se refrescar, o afrouxamento suspirado, guarda a modéstia de todos os seus imensos gestos de ação. Crianças gesticulam imensidades em seus trabalhos combativos. Seus gestuais de força são sempre muito, imensamente maiores do que o real. Existem relatos de crianças que sofreram um abrupto, ao se depararem com seu corpo inteiro, pela primeira vez, diante do espelho. Não se imaginavam tão pequenas. Se viam imensas e muito fortes.

Ainda mais tocantes são os gestos em que a criança intenciona de sua consciência, uma ciência anímica. Quando a criança consola. Quando mostra intimidade natural com a morte. Quando se mostra como mostrou-se o mais desenvolvido irmão dos seres nas terras da cristandade, o barroco andarilho do bem, Francisco de Assis. Em humilde serenidade deu de mãos com a morte, sua irmã não menos querida.


O consolo dado por uma criança diante da morte revela uma sensibilidade sublime do fraterno, pouco vista nos dias comuns. As faculdades da alma se mostram, nasce ali um pequeno sacerdote, um psicopompo, um guiador da alma em transições radicais, quando é capaz de consolar sua mãe pela perda do pai. Leva, de mãos dadas, o outro arrasado para um estado de consciência superior, para um cume de visão mais larga, para um ponto ampliado de vida. Consolam com palavras de rara pregnância. Capturam, para além de sua minúscula idade, gestos transcendentes para corações flagelados.


Na seara que interliga morte e criança, começo e fim, um estudo gestual nos faria repensar quem fomos nos começos de nossas vidas. Nossos biográficos autocentrados, de infindas imputações às faltas alheias e fragilização, virariam pó nas veredas de longas descidas que outrora perfizemos, travessias órficas (ao mundo de Hades) de nossas infâncias. Há muito mais em nós, dos sussurros da FRÁTRIA morte, do que ousamos investigar. Portanto, nossas células, o chão de nossos músculos, o limo de nossa memória, sabe muito bem sonhar, ouvir os conselhos da morte.