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  • Gandhy Piorski

O lugar da criança


No filme Meninos e Reis, os preparativos para a Festa de Reis têm um forte teor de despedida na vida de sua principal personagem. O sentimento mais profundo, não nomeado e inconsciente é o da infância. A rainha do reisado deve entregar sua coroa. Já não mais menina e ainda não mulher, entrará no limbo da puberdade. É hora de deixar seu reinado. O desterro do paraíso. O fim da infância.


Enquanto se prepara, ela escolhe as cores do seu vestido, se despede de pouquinho durante os ensaios, denota sua saudade dos dias de criança. Ao mesmo tempo, percebe a importância de saudar a nova rainha. A menininha, sua irmã, ocupará o lugar mais nobre, receberá a coroa. Novamente será inaugurado o lugar da criança.



Eis a peculiar percepção de Gabriela Romeu com seu Meninos e Reis: o lugar da criança na comunidade. Emerge aqui uma rara intuição da cultura. É pouco comum um dado simbólico dessa natureza. Qual o lugar da criança no consciente cultural? Onde as manifestações populares reconhecem a criança em seu devir? O que a cultura assegura sobre a alma dos meninos e meninas? Pouco sabemos disso.


A criança sempre teve seu lugar nos festejos populares. Nada especial encontrar em diversas manifestações e folguedos as crianças ocupando um lugar simbólico. Representando uma altivez, uma divindade, um anúncio de novo tempo, personificando uma situação catártica. Criança, na poesia popular, na mitologia e nas lendas, manifesta a energia criadora, a dádiva, o porvir, a renovação.



Os documentos acerca do Menino Deus nos presépios populares, os estudos sobre as festas de São João Menino e Divino Espírito Santo, os registros do Nego Fugido na Bahia e dos Papangus do Ceará, as pesquisas acerca dos folguedos infantis do Cariri e os Fofões do Maranhão denotam (mesmo que de maneira inconsciente) uma riqueza de emergências simbólicas da criança como vate, como canal de verticalidade.


Isso nada de novo sugere, para além da novíssima e sempre renovada presença da Criança Divina se manifestando na imaginação criadora dos poetas e artistas populares. Isso já foi e ainda continua sendo silenciosamente estudado por espeleólogos da imaginação, peregrinos de longas noites, com seus fachos, pelos grotões onde vicejam arcaísmos.


Mas têm-se poucas evidências do lugar assegurado, pela cultura, para a criança real e humana. Mesmo os ritos de passagem nas comunidades tradicionais, especialmente nas populações indígenas, nos falam mais de uma tomada de consciência. Falam da saída do mágico para a vida adulta, de uma erotização do sistema nervoso, de uma entrada no universo da caça, de uma maior participação no contexto do grupo, de uma imersão no feminino.


Aqui, em Meninos e Reis, ao contrário desta via de “entrada na vida” adulta, o filme nos aponta a permanência no estado criança. A coroa deve voltar à menor criança, o mágico estado deve permanecer, o fantástico deve ser assegurado. A coroa é o topos, o lugar, a instância da pura imaginação, o acolhimento à alma da criança. Esse raríssimo filme, delicado, bem cuidado em fotografia a e narrativa, mantendo um caráter documental e etnográfico, sem maiores pretensões, acorda para os estudos sobre a criança um dado profundo. Minimiza uma dívida, tira dos porões do inconsciente cultural e traz para a consciência, para o nomear, aquilo que nunca entendemos com clareza: como acolher a criança em seu reino de sonhos e, ao mesmo tempo – pelo sonho estético –, ajudá-la a ser.



Muitos elementos de grande riqueza simbólica estão no filme. Tantos que aqui, nesse pequenino texto, não poderíamos abraçar e narrar. Mas o centro, o cerne, o alvo, o mitologema de Meninos e Reis é a acolhida da criança no mundo. Acolhida pela via cosmogônica, do festejo ritual, do mundo simbólico, da poesia e da música. Acolhida que se perpetua, até a pequena rainha, depois de algumas boas temporadas de folguedo, ter de passar, a uma menor, sua coroa e se despedir de seu reino de encantamento. Justamente para assegurar a continuidade do mesmo. Assegurar, honrar o lugar da criança no mundo.