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  • Gandhy Piorski

O FANTASMA, A CRIANÇA E AS FRONTEIRAS

Atualizado: Ago 31

Um dos temas mais repetidos nos contos e histórias tradicionais dos povos, é o dos fantasmas e monstros que se apossam sorrateiramente das pessoas. Os fantasmas aparecem das mais distintas formas. Bizarros e deformados por natureza, são quase sempre estremecedores dos leitores e ouvintes dessas histórias.


Eles aparecem de muitos modos e, quase sempre, sorrateiramente colados atrás de suas vítimas, com a respiração rugida e a saliva a escorrer por suas miríades de dentes pontiagudos na boca imensa. Eles, muitas vezes, se fingem de pessoas e pedem uma carona na garupa do cavalo. Ou mortos por algum motivo injusto, ou atropelamento, passam a pedir carona aos caminhoneiros, apavorando-os. Ou mesmo, são muito antigos sem origem definida, rondam as noites das crianças à espreita, para raptá-las. Também aparecem como entidades impiedosas das florestas, castigando os desatentos que ousam caçar em seus territórios.


Essas figuras quando deixam de ser contadas, nos contos ou nos causos populares, são reinventadas pela brincadeira das crianças de muitos modos. Passam a morar nos banheiros das escolas, nas casas abandonadas, num canto escuro da própria casa ou debaixo da cama.


Muito cedo, por volta dos 03 anos de idade, a alma já nos envia esses sonhos assustadores. E eles ainda hoje habitam o sentimento coletivo em muitas partes do mundo, sendo revividos por ondas de aparições e matanças inexplicáveis de animais.


Talvez hoje, muito menos, essas invasões terríveis e fascinantes da alma estejam ocorrendo. Nossas imagens internas não são mais tão cultivadas e credibilizadas. Nossa razão, já muito inflada, pretensiosamente psicologizada, nomeia tudo.


Mas as crianças, essas não param de sonhar! Não param de fiar nas imagens o compromisso de prosseguir crescendo, ampliando, criando reservas de vitalidade. E o medo dessas criaturas lhes é muito atraente e sedutor. Funciona como um magneto, esse estado excitativo e aterrorizante do fantasma. Parece mesmo uma espécie de função vital, exigida pelo corpo, o contato com esse elemento malévolo da natureza. Uma espécie de aproximação que ameaça desabar todas as fronteiras, que vai ao limite do suportável pela individualidade, que tem o signo do mais invasivo e obsidiante possível. O risco de ser dominado pelo fantasma, de ser recolhido para sempre por ele, de ser comido pelos olhos, de ser transformado em uma coisa servil do bicho, é o sentimento de possessão, de perda completa de um eu, de desterro para sempre do ninho familiar.


Por que desejamos esse estado limítrofe? O que fascina nas crianças esses medos primais? O que são essas formulações que nada tem a ver ética, com lição de moral, com caminho de conduta, com ser boa ou má pessoa? Que tipo de regulação é essa a que nos impomos, temerosa e graciosamente, nos tempos de brincar com as noites?


Somos, quando crianças, talvez mais do risco que do conforto. Somos, nos começos de nossas vidas, provavelmente mais das experiências fronteiriças que do centro organizador. Pois não é do centro que nasce o senso do equilíbrio, e sim da provocação periférica que nos convoca ao centro.


Talvez, no brincar, gostemos mais da constrição adrenalínica que nos impõe respostas adaptativas, do que da velha busca pela tranquilidade dos adultos, já com poucas opções de respostas, com seus recursos neuronais empreguiçados. Provavelmente, o grito mais ensandecido da alma pela boca ensanguentada de um fantasma, ponha a criança muito mais próxima de sua profundidade corpórea, de sua verdade óssea, límbica e material, do que as bem comportadas receitas da cultura pedagógica, atolada em suas funções organizacionais, constrangendo o viver para o mundinho escolar. Aliás, diga-se de passagem, Freud assessorou-se, no alemão, da palavra constrangimento para criar o termo neurose.


Talvez o fantasma acione com prontidão lugares mais primitivos, recursos de energias mais aptas ao despertar, celeiros de impulsos necessários à ampliação da memória relacional. Memória esta que nos faz interagir mais vivamente com o meio logo ali, após a nossa pele, além da fronteira. E por outra via, também nos impõe o meio logo aqui, em nosso interior, antes da pele, para cá da fronteira.


A fantasmagoria na infância se desprende do visceral, do esfincterial, do parassimpático, de nossos modos de regulação mais primitivos.