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  • Gandhy Piorski

Naves, carapaças e armaduras: tecnologias nos contos de fadas

O Fruto é cego. Quem vê é a árvore.

René Char


Operar magicamente no mundo valendo-se dos meios tecnológicos, não começou com a chamada literatura de ficção científica. Isso é um sonho muito antigo que já impregna as mitologias mais recuadas.


O desejo de mimese e reprodução de muitas formas da natureza nos fez criar, das carapaças dos bichos, as armaduras, nos fez imaginar, dos raios e coriscos, a energia para os tantos carros de fogo nas mitologias e contos, nos fez investigar a aerodinâmica das penas e conceber possibilidades de voo. O engenheiro Dédalo e seu filho Ícaro, certamente não foram os primeiros.


Essa operatória que trabalha numa biomimética não é só invenção do mundo consciente que se põe a pensar e narrar. É sobretudo, modus operandi de nossa interioridade. Funcionamos mimetizando a natureza. Mais do que isso: funcionamos como funciona a natureza. Pois, se fôssemos imitar a natureza, seríamos outra coisa que não natureza. Na realidade somos ENDO MIMÉTICOS. Imitamos a nós mesmos: a natureza. Todo fabulário de imagens que produzimos em nós, são aspectos de relação e regulação que estabelecemos com a vida toda.


Quando essas imagens surgem de modo tão imparcial e até indiferente, como nos contos, são como cantos das musas, vem trazendo mensagens da arquitetura da vida e sua movência na existência humana.


Naves não seriam a força mágica de superar a pressão do espaço e a angústia do tempo? Não seriam recursos da consciência para impulsionar sua expansão, sua supervisão, sua onipresença? Não seriam essas coisas voadoras o ato cirúrgico de redenção da condição miúda dos que se arrastam? Os cavalos alados não unem poder e velocidade? Ao mesmo tempo, e por isso mesmo, não inspiram a liberdade? O senso de liberdade das crianças mais se vincula ao poder a à velocidade?




As carapaças nas costas de um sapo, no dorso de um dragão, nos cascos de uma velha tartaruga, ou na pele quase fossilizada de um crocodilo, trazem muitas vezes uma espécie de asco, ou um receio em tocá-las. Armaduras são fardos do tempo? São defesas cansadas, envelhecidas, incrustadas? Armaduras são amortecedores? São boas ferramentas para impactos, hábeis para as tarefas impossíveis, seguranças para as batalhas? Qual o peso da armadura de cada criança? Como ela a forja? Quais matérias primas afetivas (sentimentos) ela usa para modelar seu gládio? Para quais finalidades a criança usa gládios? Por que o Super Homem e o Homem de Ferro fazem tanto sucesso?


Tecnologia na vida cultural é vontade de ir à Marte, desejo de morar na lua, conquistar novas galáxias, ser habilíssimo na produção e nos negócios, luxar num carro de inteligência artificial.




Tecnologia nos contos de fadas é desejo de falar com Deus, é vontade de transitar por mundos, é domínio do sobrenatural, é clariaudiência, telepatia, vidência.


Seriam essas duas modalidades (cultura e contos), uma mesma?