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  • Gandhy Piorski

DE DIE NATALI: a criança e o anjo que guarda


Censurinos, por volta de 238 d.C., em seu discurso intitulado DE DIE NATALI, desde a antiguidade europeia (ainda romanizada), nos dirá sobre o Gênio ou sobre o Anjo. Mas a expressão anjo só será assimilada posteriormente, pelos neoplatônicos cristãos, pelo pensamento escolástico, ou mesmo através de poetas e filósofos do coração no médio (médium) Oriente, como Rumi e os Dervixes girantes.


Sobre o Gênio, ou Anjo, nos diz o romano Censurinos:

“Gênio é o deus sob cuja proteção [tutela] cada um vive desde que nasce. Seu nome, ‘gênio’, provém certamente de geno (gerar), seja porque ele vela para que sejamos gerados, seja porque ele mesmo é gerado conosco, seja, ainda, por que ele se apodera [suscipi] de nós enquanto seres gerados e nos protege. Que o gênio e os lares são idênticos é algo que nos foi transmitido por muitos autores antigos [...] Essa divindade, acreditava-se, tem sobre nós o máximo poder, até mesmo todo o poder [...] o gênio nos foi atribuído [adpositus] como assíduo protetor [adsiduus observator], de modo que não se afaste de nós um único instante [longius abscedati], mas nos acompanhe [comitetur] desde nossa saída do ventre até o último dia de nossa vida”.



O gesto ensinado às crianças, de unir as mãos em oração, acompanhado de outro mais antigo gesto, o de mover o pensamento a uma instância superior, mais alta e purificante, de dirigir o pensamento ao imaginar, para criar condições de dialogar (estar COM), o ANJO, o GÊNIO, não é só um gesto cristão ou crente daqueles que creem em seres angélicos.


Para a antiguidade, esses dois gestos, são de natureza filosófica, preceitos de mobilização da IMAGINAÇÃO ATIVA, ou IMAGITATIO VERA.


Elevar-se em SI próprio, em estado de visualização interior, tecendo imagem, compondo um ser divinal a partir de seus próprios recursos, para, em reverência, estar diante dele e estabelecer diálogo, era considerado importantíssimo TRABALHO filosófico. Filosofia nos termos da antiguidade.



Ativar o talento de criar imagens internas não é criar mundos ilusórios ou dogmas religiosos. Ao contrário, é reunir recursos anímicos, vitalidade própria, concentração dinâmica para contatar as fontes criadoras. Operar com imagens esculpidas a partir de seu interior é estabelecer direta relação com o Gênio. Essa operação necessita ser em campo fértil, tessitura de imagens desde os territórios do sublime. Não é qualquer imagem tramada em nosso interior que nos contata o Anjo, o Gênio. São as imagens que exigem da alma capacidades estéticas da elevação, de sublimação (abertura), de propósitos coletivos, humanitários, transpessoais, vinculados ao servir.


Quando imaginamos imagens para nossos desejos pessoais, há, sem dúvidas, um grau criador, mas ela pouco dura, não tem algodão de capucho nobre o suficiente para preparar fios duradouros no tear da criação. E se insistimos nessas imagens de desejos próprios (autocomiserantes), é possível sim criar uma plástica atuante, influente na realidade, mas, essas imagens, tendem seriamente a nos capturar, a nos obsedar, a serem nossas prisões.



O Anjo mora no lugar do si próprio, que é benéfico para todos os seres. O gênio acampa e cria fortaleza, naquilo que o ser já aperfeiçoou, em si, de serviço, de entrega, de renúncia. Quando saímos do serviço e entramos na compulsão pessoal, nas teimas, nas tramas de vaidade, poder e cobiça, saímos da fortaleza luminosa do Anjo. Abandonamos a intuição gênica.


Por isso, o gesto de unir as mãos desde cedo, e despertar na criança a tecelã que ela é, levando-a gradualmente a obter o domínio livre de compor, em luz imaginal, o Anjo de sua guarda, é um ATO FILOSÓFICO. Um ato de amor ao estado criador, o exercício imunizante de sair da arapuca social, política e cultural e banhar-se nas fontes inesgotáveis, e infinitamente debulhar criação. Imaginar desde o propósito de benefício a todos os seres, é irmanar-se ao Anjo, à guarda criadora, ao batalhão dos genitores da vida. Aí sim, o cultural, o político e o social poderão começar a fazer algum sentido.



Desenhar seu próprio Anjo em imagens interiores não é inventar ou fantasiar um anjo qualquer, mas é ativar a única e verdadeira faculdade de FALAR COM OS ANJOS, para que eles, se mostrem como O são no desenhar da criança. A única e verdadeira faculdade, a angelical faculdade, é altivo imaginar.


A criança, ela própria, por si, já revela o Anjo. O Anjo na criança vem, muitas vezes, à frente de sua individualidade e, quase sempre, nos fala. Criança é epifania angélica. Ela nos declara que o Anjo é o que somos de mais depurado, de mais nobre, de mais universal, de DESCOMPARADAMENTE (gênio Manoel de Barros) divinos.


A angelologia das infâncias é espiral de seres alados que, por hora, muito brincam. Brincam profilaticamente, preventivamente, ensinando-nos dos dons do imaginar, para, inevitavelmente depois, inspirar a árdua batalha de nos GUARDARMOS DE NÓS PRÓPRIOS e não atrapalharmos, em nós, o trabalho arcano do Anjo.


E - exorcisando a autocomiseração - para aquelas crianças que não podem unir as mãos e ativamente imaginar, não duvidem, A NATUREZA É SEU ANJO GENO. Cada passarinho, cada folha do chão, cada vento, cada angélica frequência musical, é o Gênio ali, lhes tocando, atuando, em vigília, sussurrando o infindo murmúrio da fonte das fontes, cujos guardiões são as legiões do puríssimo bem.



Preparemo-nos, aproximando as crianças do Anjo, para o dia dos pés descalços da cristandade, ou para a culto ainda mais antigo do mundo pagão (solstício de inverno): DE DIE NATALI.


A natividade não é mancho festivo com presentes da animalesca black friday e perus gordos degolados, estendidos na mesa displicente de nossos hedonismos. A natividade é pobre, sem casa, dormindo junto aos lírios, reclinando a cabeça na relva, filha do luar e oriunda da estrela d’alva.


Não entupamos nossas crianças, logo no dia de celebrar natividade, do lixo tóxico da indústria de brinquedos. Os peixes regurgitam nos oceanos de tanto plástico ingerido. Os golfinhos assuatam-se com massas, ilhas venenosas de plástico flutuando em sua morada, outrora santa. Nossas crianças acumulam metal pesado no sangue devido à química plástica e as tintas dos ditos brinquedos.


A natividade é benefício para TODOS OS SERES. É o dia humilde que de nada se assenhora, que nada intenta dominar, nada impõe, nada cobiça, mas apenas se faz, se presentifica, se doa e - nada a mais, nada a menos - É.