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  • Gandhy Piorski

Crianças! Já pra casa! (texto I)

EXTRA-ordinário.

“O retorno é o movimento do TAO”

Lao Tse



O número 40 sempre esteve ligado às grandes transições. Na imaginação mística de Pitágoras o quatro é algo estrutural, quadrado, firme, de bases internas, prático, efetivo. Nas mitologias dos povos esse número não se mostra diferente. Para ficarmos só na mitologia judaica temos os 40 dias e 40 noites de chuvas preparando o dilúvio. Moisés, abridor de águas, passou 40 dias jejuando antes de receber a regência do povo que se libertava de julgo antigo. Houveram 40 anos de travessia dos hebreus no deserto. Elias, o profeta fazedor de pontes entre céu e terra, o pontífice sumo, o mago do fogo, caminhou 40 dias e 40 noites para o monte Sinai depois de ter sido alimentado por um Anjo. Nesses 40 dias caminhando preparava-se para ouvir da fonte primordial.

Séculos depois, por 40 dias, o Mestre de Nazaré, o filósofo que devotou todo seu amor à verdade, raro de beleza, inolvidável de palavras, descalço, se internaliza no deserto e, a Si, alveja. Nasce, muito depois, a quaresma (os quarenta dias) da tradição cristã. Encontramo-nos nela agora, desde o carnaval até a páscoa que já se aproxima.

E, para mais um lembrete, estamos no ano 20+20. A palavra desse ano é QUARENTENA.

Mas, atenção, esse NÃO é um texto de numerologia. Nem de ocultismos. Longe disso! O desejo aqui é deslocar nosso sentimento para o reino das grandes imagens humanas. Fazer um RETORNO para percebermos o poderoso terreno simbólico, regenerador de subjetividades, que estamos pisando. Matéria orgânica para uma terapêutica familiar e silenciosa que ampare nossas crianças nesse momento de vida radicalmente alterado e imprevisível.

Já pra casa menina! Já pra o quarto menino! Lembram-se desses ralhos de nossas mães?

Já pra casa todo mundo! Diz a mãe. Acabou a bagunça! Diz ela esbravejando com a molecada que briga e tagarela na rua!

Ah mamãe farta, cozinheira, morena, peituda, azeitada dos óleos dos frutos, cheirando a alecrim e manjerona, lavradeira da horta no quintal, camponesa do mundo, plantadora de roseiras pelo mando do luar! Ah mamãe, como tu demoraste! Só teu grito, POR DENTRO, no micro, nas fímbrias, seria capaz de ensaboar um JÁ PRA CASA! Fremido e sísmico. Um RELA forte, que pega nas tripas da loucura humana e a aquieta. Ah mamãe, SENHORA DE TODA TERRA, como estava eu com saudades de teu grito com colher de pau na mão, em riste, avisando sério e sem brechas para nenhum menino malcriado te questionar! Que saudade eu tive de Ti!

Alguns renitentes, raivosos e entristecidos, muito doentes, que já não sabem mais quem tu és, ainda tentam subestimar teu grito, fazer pouco caso da tua POTESTADE. Mas esses, tão querida mamãe, já estão murchos e envergonhados. Outros deles ainda latem pelas esquinas vazias. Precisam, talvez, mais do que muitos de nós, do teu amor e consolo. Esses de caráter débil.

Ah mamãe, mãe pachorrenta e gorda, mãe forte e trovejante, aqui eu estou um tanto apreensivo com tua bronca, quietinho! Mas confesso, como quem confessa a maior das alegrias e o maior dos encontros, estou com um imenso sorriso guardado em silêncio meditativo, admirado, de alma lavada e seguro, pois agora vejo tua face poderosa! Essa estranha alegria me ocorre a todo instante.

Sabe mamãe, tenho, às vezes, pulado de alegria por que tu vieste! Já não ouvia mais nada nessa polifonia desembestada, já me confundia com tudo, o barulho era alto demais, me segurava num fiapo de esperança de que tu estavas nalgum ponto esperando o momento de vir. E vieste! E como vieste! Invisível e silenciosa, como vem as Deusas, açoitando pelo vento, como Ártemis caçadora e suas andorinhas, ou mesmo, para os teimosos, vens como o temido e inflexível OMOLU. Com um sopro, em pouquíssimos dias, mandou todos nós malcriados para casa. E AI dos que não te querem entre nós e te desdenham!

Mas não acho graça com ironia, displicentemente. Pois há os que sofrem nessas horas, e por todos nós humanos que sofreremos com teu justo açoite, teu chicote. Sim, nós humanos, pois os passarinhos catam agora mais, as manhãs cada vez mais são CANORAS. Os botos, golfinhos e filhotes de baleias têm, aos poucos, suas águas se clarificando, se regenerando.


E a nós humanos, o grau de nosso sofrimento que hora está por vir, ainda é incalculável, imponderável, talvez apocalíptico (revelatório). Essa é uma dor. É A VERDADEIRA DOR. A dor de todos. Todos nós teimosos e desobedientes, de um modo ou d’outro, fizemos acordos com a barafunda instalada há tempos em cima de ti mamãe, nos teus peitos, na tua boca, no teu ventre. Desarvorados te pisoteamos. Jogamos nosso lixo gourmet nos teus rios e nossa fedentina nos pulmões uns dos outros. Metemos as mãos sujas nos teus segredos.

A dor de todos é a SUBLIME DOR. Essa nos leva ao que interessa. Sentir na carne. Sentir em todos. Saber-nos TODO.

Estamos de quarentena, na quaresma, no ano 20 + 20, flagrados pelados, imundos e desorientados no imenso deserto de nossa travessia egocêntrica.

Boa hora! Eu aceito essa hora, eu a recebo!

Mas cuidado! Hora de imobilismo. Hora difícil! PRINCIPALMENTE PARA AS CRIANÇAS.

Foi por causa das crianças que comecei esse texto com o número 40. Não pela numerologia. Mas pela NUMENOLOGIA (pela aura sacral, pela imaginação encantatória) que o 40 contém.

Em tempos de catástrofe e privações, em escala humanitária, o impacto maior acontece nas crianças. AS CRIANÇAS SÃO A LINHA DE FRENTE DA VULNERABILIDADE. Não só a vulnerabilidade pela pobreza, pela violência, pela falta de assistência social ou pela insensibilidade dos Estados, ou mesmo das escolas que agora invadem suas casas e as entopem de mais sujeira informacional. Mas a maior vulnerabilidade das crianças é pela sensibilidade e modo de percepção do mundo. Essa sensibilidade está em todas as crianças de qualquer condição social, cultural, com deficiências ou não, ou como queiram classificar. Portanto TODAS as crianças precisam de cuidado maior nesses momentos. CRIANÇAS DE 0 A 14 ANOS!

Sociedades de pediatria do mundo inteiro estudam impactos de catástrofes, guerras e transições ambientais na vida das crianças. Sintomas como, problemas de sono, problemas alimentares, tristeza, ansiedade, temores, preocupação, somatização, regressão em seu desenvolvimento social, abuso de substâncias (álcool, tabaco, drogas), ausência no convívio, são algumas marcas agudas que afligem seus corpos quando a realidade à sua volta é profundamente alterada.

Portanto é tempo de cuidarmos de nossa saúde familiar. Fomos postos de ‘castigo’. Temos tempo de sobra para olhar nossos filhos. Mesmo sabendo que muitos, milhões, terão de fazer isso sem perspectivas de trabalho, alimento, saúde. E, ao que tudo indica, teremos cada vez mais tempo, pois trabalho não será mais trabalho como conhecemos.

Assim temos duas opções: uma é soltar nossas neuroses (de manter tudo como era, já não sendo nunca mais), apego, medo e pânico em cima das crianças nos metros quadrados de que dispomos para conviver; outra, encontrar força e superação para abrir mão do controle e estabelecer um pacto de convívio amigo, brincado, inventado, simples, comum, feito por todos, interiorizado. Um pacto de vida RITMADA.


Se expusermos continuamente as crianças às notícias diárias do agravamento da situação, aos nossos discursos políticos dos acontecimentos, às nossas ansiedades financeiras, ao medo delas ficarem sem instrução formal e a tudo o que já vínhamos fazendo antes de tudo isso acontecer, isso vai virar um INFERNO NO CORAÇÃO DE NOSSOS FILHOS. Inclusive se deixarmos a escola invadir nossas casas.

Não sejamos SACANAS e hipócritas com nossas crianças.

Talvez devêssemos dar-lhes a BOA NOVA de que possivelmente as ESCOLAS NÃO EXISTAM MAIS depois disso tudo. Elas têm direito a essa utopia. Temos o dever de perguntar-lhes como querem construir uma nova forma de aprender. Utopia é o elemento SALINO que corrói o que há de decrépito no real.

Aos mais politizados, cuidado! Tendemos a imaginar que as crianças precisam participar do que acontece no mundo, desde cedo são educadas (quando não, doutrinadas) na nossa forma mais “inteligente” e “comunitária” de ler a sociedade, e as expomos de chofre em realidades que FEREM GRAVEMENTE sua sensibilidade anímica, seus sonhos de alteridade, seus ideais em germinação plena...

continua no próximo texto...