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  • Gandhy Piorski

As obras da criança I - Seres do paraíso

Desde o início de minhas pesquisas ‘etnográficas’, por entre as culturas PERENES da vida imaginária das crianças, venho realizando escuta. O livro BRINQUEDOS DO CHÃO é isso. Assim como tantos outros trabalhos.

O que estão dizendo as crianças? De qual lugar de si mesmas elas falam? Por quais linguagens dizem?

As investigações que realizo tem apreço pela materialidade do que a criança produz – mas não só. Portanto mostrarei imagens de objetos construídos por elas.

Em todas as postagens farei breves e LIVRES cruzamentos daquilo que as crianças constroem com obras de artistas, iconografias antigas e imagens de poetas e filósofos (preferencialmente os da antiguidade).



Aqui, como primeira, vejamos os SERES DO PARAÍSO. Mostro iconografias dos tempos de Marco Polo, representando seres que viviam além do horizonte, numa espécie de paraíso primitivo com criaturas fantásticas.

Apresento duas gravuras que podem ser vistas intercaladas a dois objetos feitos pelas crianças.


O primeiro objeto tem um título dado por uma menina de 07 anos que o construiu: “mulher de perna azul e seu colar”. O segundo objeto é sem título e foi produzido por um menino de 09 anos.

Um terceiro elemento de narrativa trago no texto, fazendo cruzamento com as obras das crianças e com as iconografias: a concepção filosófica de uma incrível personalidade pré-socrática da cidade de Agrigento, região da Sicília, chamado EMPÉDOCLES, 500 A.C.

Empédocles concebeu sua cosmogonia numa atualíssima noção de democracia.

Crio aqui, portanto, tangenciais daquilo que narra o pensador, com as composições das crianças e as gravuras medievas.

Ler os fragmentos desse filósofo, diz o saudoso professor José Américo Peçanha, nos remete a imaginar ter visto André Breton escrever seu MANIFESTO SURREALISTA, ou presenciar Jerónimos Bosch a pintar.


Em um de seus dois únicos poemas que chegaram até nós, SOBRE A NATUREZA DAS COISAS, ele diz no fragmento 57:

“Sobre a terra nasceram muitas cabeças sem pescoço, braços erravam nus e privados de ombros, olhos vagavam desprovidos de frontes”.

Diz ainda no fragmento 58:

“Membros solitários vagavam procurando se unir”

Fragmento 61:

“Muitas criaturas nasceram com rostos e peitos olhando para diferentes direções. Algumas progenituras de bois com rostos de homens. Enquanto que outros, ao contrário, vinham ao mundo com progenituras de homens e cabeças de bois”.

Entendemos melhor essas imagens criadas por Empédocles quando encontramos sua ideia de PHYSIS, ou fundamento da vida.

Ele dizia que existem quatro raízes originais: água, terra, fogo e ar. Junto a esses princípios que são únicos em si mesmos e iguais perante os outros, existia ainda outro par, PHILIA E NEIKÓS, que podemos, dentre outras possibilidades, traduzir do contexto de Empédocles, como amizade e discórdia.

Amizade une os iguais, discórdia separa os iguais. O cosmos vive de ciclos. Por períodos quem predomina é philia influindo sobre água, terra, fogo e ar. Em outros tempos é neikós quem promove o movimento. Eles trabalham unindo ou separando, em graus diferentes, os quatro elementos contidos em todas as formas de vida.

Nunca conseguem separar totalmente; nunca alcançam a unidade completa.

Daí, portanto, a ideia de porções separadas de corpos. No dinamismo do cosmos essas partes vão se unindo a outras, ou mesmo se separando. Todas as partes de outros seres com todas as outras partes de outros distintos seres. Vamos (nós as criaturas) experimentando ao longo do tempo inúmeras formas e existências. Seguimos assim maturando a vida.

Uma harmonia permanente em permanente mutabilidade. Igualitária em seus direitos e identidades. Não há quem seja maior ou melhor que outrem.

Assim vale refletir sempre: o que as crianças criam é pura gratuidade? Ou há congruência dessas imagens imaginadas com concepções de identidade em permanente construção? Há no gérmen imaginador da criança um senso sincrético? Habita aí um desejo de manter as coisas inacabadas e em constante transformação e aprimoramento? Há DEVIR permanente nas obras da criança?

Esses seres imaginados pela menina e pelo menino, pelos contemporâneos de Marco Polo e por Empédocles, criaturas de um paraíso para além desse REAL medíocre criado por um positivismo já nascido esquálido, esses seres, de um SURREAL, não tem uma função de alma, subversiva, de mistério, de fascínio do mundo? Não são eles a própria alma?

Uma fenomenologia das obras da criança requer de nós desabrocho diante do súbito da imagem imaginada.