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  • Gandhy Piorski

A CRIANÇA E A ORDEM ESFEROIDAL

Ilustração: Cuca Almeida



Amo não menos os homens, mas mais a natureza

Lord Byron





Dedico esse breve texto a um amigo que um dia me inquiriu a conhecer as crianças do Brasil: professor João Amado, da Universidade de Coimbra.






Existem muitos modos de imaginar. Imagina-se musicalmente, imagina-se fantasiosamente (falseando), imagina-se apenas articulando os símbolos no estreitíssimo social, político e cultural. Existem também modos de imaginar nada estreitos, muito mais poderosos, modos que nos vinculam ao meta-cultural, ao trans-histórico, ao divinal (imaginatio vera).


Imaginar não é só ver imagens. É possível existencializar o íntimo sem visualidade. Por exemplo uma imaginação tátil. E, de modo mais abstrativo, também podemos imaginar geometricamente.


A imaginação geométrica é mais dada às ideias claras, cartesianas, separatistas, idolátricas. Mas também ele guarda um poder para além da logicidade mental. Alguns gênios matemáticos, especialmente os que cultivavam seu mundo anímico, já disseram que os números tinham uma espécie de personalidade, uma existencialidade, uma dialogicidade, um caráter de ser. A vera imaginação geométrica alcança os mundos fractais, ou a conectividade entre tudo.


Em um modo geométrico de imagística os ciclos, os ritmos, os inícios e fins, podem se apresentar como esferas.


A terra girando em torno, torneando, o sol. A lua torneando a terra. Essas imagens nos expandem à contemplação de uma das grandes funções da vida, o movimento esférico que mantém as estações, as frutificações e hibernações, os polos e glaciares, as marés. E não menos importante, os fluxos de nossas imagens internas, se intencionados nesses movimentos, também adquirem sua expressão, seu modo de Si dar.


No entanto, se abstrairmos ainda mais as imagens para a pureza geométrica, podemos deixar de ver as estações do ano, as marés, as frutificações, e ver apenas as esferas. Esferas imensas girando no sistema solar. Criando inclusive atritos com seus giros.


Por exemplo, visitei certa vez um sítio geológico na Paraíba, em Cabaceiras, chamado Lajedo do Pai Mateus.


Fui levado a um platô com enormes pedras esferoidais, como que grandes bolas de rocha e minério de ferro, pousadas espaçadamente sobre um plano elevado, uma grande laje a céu aberto de granito bruto. Parecem ter sido assentadas para um jogo de deuses ainda meninos num tempo muito arcaico.


Uma das teorias para a forma esferoidal daquelas gigantescas rochas é de que o próprio movimento da terra as burilou. Como seixos que rolam no riacho uns por sobre os outros, e vão sendo polidos. Só que o atrito, nesse caso, foram as intempéries, as eras, o ar, o calor, etc.


A esfera da Terra se movendo e moldando em si outras esferas. Pergunto-me então se as formas biológicas, na sua matriz, não seriam todas esféricas. Mesmo que isso mude no resultado final, mas o início do movimento germinativo, de líquidos e seivas é quase sempre esférico.


A água é de natureza esférica em suas correntes oceânicas e marés, sempre desenha formas arredondadas. As tempestades também. Os bebês se formando também. Os frutos, a mesma coisa. O fogo espirala e rodopia suas labaredas e fumaça.


Novamente: em rarefação geométrica, em abstração de formas, somos esféricos.


Portanto, acrescentemos agora, mais um elemento à ideia do redondo: ele, quando em dinâmica, é rítmico.


Podemos dizer que a natureza do ritmo é esférica, circular. Só somos se pulsamos. Por isso nossa cárdioafetividade, circulatória, só se sente retroalimentada se pode expandir e contrair em exteriorização e introspecção.


Assim o ano se finda para renascer. Assim as crianças se apartam a cada dia de um tempo de crescimento para entrar em outro, assim as brincadeiras são sazonais, assim as festas cíclicas necessitam se repetir, voltar a um ponto inicial para recomeçar.


O recomeço parece repetitório, mas nunca estamos no mesmo lugar de consciência, quando ele se reinicia. Uma festa anual da comunidade sempre é a mesma, mas nunca se repete, pois estamos num outro patamar de maturação para revivê-la.


Eis a ciência do ritmo! Eis a eternidade do círculo, onde o começo encontra o fim, e o fim encontra o começo. Esse é o mistério das festas de renovação. Um saber de iniciação. Uma contensão e esteio para as crianças. Uma pedagogia de tônicos, de tônus, de elos entre as transformações, de força interior. Um lento alargador da percepção dos significados.


A Terra - corrijo-me - não torneia o Sol, mas é torneada por ele. Nunca é a mesma quando reencontra - desde muitas eras - suas faces com as faces do Sol. O Sol faz plástica na Terra. E a Terra vai girando e modelando - pelo imo - seus filhos, que também nunca são os mesmos, porque transformados pela luz.


O bebê, até os três meses de idade, tem na mãe a regulação de seu ritmo. Depois, volta-se para a luz solar e se regula por ela (ritmo cincardino). Esse é um primeiro gesto de ruptura e autonomia. Infância é flor de girassol (flor de nome esférico), se gesticula para a luz, busca da luz sua rítmica própria, sua própria relação, sua afirmação.


Ritmo na infância é metáfora esferoidal. Burila, desincrusta, cria resistência e força, adverte, desenha identidade e capacidade emancipatória, traz autonomia e senso vivido de interdependência.


Portanto, saibamos viver os ciclos! Viver de modo maior, grande, extemporâneo, como gostam as crianças. Assim também, saibamos vive-los de modo miúdo, pequeno, incrustado nas coisas e suas fendas, que dura e se arrasta, como também gostam as crianças. Porém, que seja da ordem das grandezas da natureza. Que seja mais da ordem oculta da vida, que propriamente do chafurdo inquieto dos homens.


Pois esse chafurdo tem tirado as crianças do dormir cedo (fundamental para sua saúde neurológica, endócrina, imunológica). Esse burburinho incessante tem abandonado as crianças diante das tecnologias e profusão de imagens das telas, principalmente antes de dormir, tolhendo a expressão dos sonhos noturnos, atrapalhando a liberação de melatonina e dimetiltriptamina (a molécula do espírito). Em outras palavras, bloqueado imaginação interior, as imagens restauradoras de sua alma. A plástica, o halo estético de sua interioridade não vem brincar na superfície, não vem ensinar seus mistérios, não vem apurar sua cognição profunda, não vem dar conselhos da intuição.


Desejo que aprendamos mais sinceramente a sintonizar nossas crianças com essa pulsação arterial da vida, o pulso da Terra. Só uma pedagogia do rito nos trará tal ciência. Só um confidente auscultar do ritmo nos abrirá essa porta.