Buscar
  • Gandhy Piorski

A criança divina e a desonra de um inocente

Ao menino Arthur Lula da Silva



O máximo da divindade nas culturas é representado pela criança. A criança divina. Uma ampla mitologia que funda as tradições mais antigas tem na criança sonhos de mistérios, assombros sobrenaturais, visões de poder. Podemos citar tantas festas que celebram crianças divinas em todo o mundo, as mais notáveis talvez sejam o nascimento de Jesus e Krishna.

Para Jung, o cientista das religiões, a CRIANÇA DIVINA, é o próprio SELF, o núcleo sublime, eterno, a unidade do homem com a criação.

Os anúncios do nascimento de uma criança em nossas vidas, em nossas famílias, são sempre venturosos, mesmo que na dor. Um filho que chega manifesta em nós a intuição de algo divino. Revela, mesmo que por um instante, a presença viva e silenciosa de algo misterioso, de coisa autêntica, do Ser. A criança traz uma nova manifestação da luz, da alegria, da possibilidade de fazer melhor, de novos aprendizados. Exige entrega, nos pede dedicação, evoca em nós desejos nobres, sentimentos virtuosos.



A inocência da criança, a ingenuidade que a guarnece das podridões do ressentimento e do ódio, seu pensamento repleto da amabilidade dos sonhos, sua capacidade de criar no mundo - mesmo o mais cru - um recanto de vida imaginária, é e sempre será um anúncio da presença do Divino.

Uma sociedade que ESCARNECE, em brados, DE UMA CRIANÇA - especialmente na hora desse profundo nascimento que é a morte - já sangra, está hemorrágica. Um povo que espezinha em cima da dignidade de um menino em sua travessia, na hora de sua despedida dessa via crucis que é o viver terreno, está, como coletividade, prestes a perder por completo, a graça natural, o brilho de sua alma.

O Brasil está se automutilando a golpes de machado.

Pela linguagem mitológica, pelas imagens do inconsciente coletivo, posso dizer que ontem e hoje vi, nas redes sociais, o ESQUARTEJAMENTO PÚBLICO DE UMA CRIANÇA.

A alma do Brasil está profundamente adoecida. Beira os extremos perigosos de sociedades que se autodestruíram por genocídios, matando seus próprios irmãos com foices, facas, execrações, estupros coletivos, degolamentos e enforcamentos, valas comuns abertas nas esquinas.

Parece exagero? Não nos enganemos, no nível inconsciente da cultura brasileira isso já se inaugurou. A carnificina simbólica cada vez mais agoniza no lodaçal do palavreado coletivo, ganha proporções mais e mais assustadoras.

Do inconsciente para o consciente cultural, do pensamento bárbaro para a barbárie já não existe quase limiar. A somatização já está em curso há muito tempo.



Quando a degeneração atinge e macula aquilo que os mestres do inconsciente chamam de self (A CRIANÇA DIVINA EM NÓS), o câncer já se ramificou perigosamente para o amor próprio, para o auto respeito de uma nação. Comprometendo todo o senso de preservação, de equilíbrio, de justiça.

Rogo pois, com a alma calada, em silêncio pela morte do menino Arthur, rogo pelas crianças do Brasil!

Rogo ao amor maior, rogo somente àquele que realmente tem pra dar, ao amor da Mãe, da DIVINA MÃE: guarde em seu coração nossos filhinhos e filhinhas. Envolta, cinge em teu puríssimo amor as crianças de cada um de nós brasileiros. Inclusive oh Mãe, daqueles que não respeitam mais as crianças, dentre eles os responsáveis mandatários dessa nação que tem o dever de honrar a vida dos inocentes. Rogo para que nos enleve de sentimentos tão pesados!

Rogo também, ao sublime menino divino de nossa cultura cristã, o doce Jesus, Senhor do amor, que saibamos amar todas as nossas crianças, independente de quais pais, mães e avós tenham!

Que renasça o nosso Brasil menino - mesmo que na dor - como renascerão eternamente as crianças divinas enquanto houver a terra, recordando-nos de que devemos nos debruçar sempre mais sobre o aprendizado do Amor!