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  • Gandhy Piorski

Do porão

A estrutura de nossa alma (casa) é VERTICAL.



Se examinarmos a nossa casa, a antiga morada que somos, veremos que provavelmente o andar de cima, o sótão, foi construído no século XIX sob a influência dos pensamentos evolucionistas. Os quartos e cozinha logo abaixo, provavelmente feitos nos séculos XV, XVI e XVII com as idéias de culpa, tradição, salvação, trabalho como expiação da alma e tantas, tantas outras pulsações de poderosas fantasias.


O porão, o mais interessante de todos, a base de nossa casa, o mais oculto e misterioso, esse, numa metáfora de Jung, provavelmente tenha sido construído em cima de velha ruína, quem sabe uma catacumba de sepultar cristãos primitivos. E esta, construída sobre a lage de um lugar sagrado Celta que, por sua vez, se encrustava acima de uma caverna neolítica tendo, abaixo de si, uma imensa galeria de águas azulíssimas e doces.

Viemos de muito longe.

A escada do porão só desce, diz Bachelard.


Pensar no porão é quase impossível. Só descemos nele pelo imaginar.

Para a maioria das crianças de hoje, suas casas físicas, não tem porão. No entanto, alma, mais que tudo, é quase só porão.

Portanto, porão pode ser um conto, pode ser o terreno baldio, pode ser a casa velha abandonada, podem ser as histórias antigas da família. Nas noites bem vividas da casa, com histórias de grandes imagens, silêncios, memórias e medos (esses minerais de infâncias) abrem-se escadas de descer porões.